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sábado, agosto 26, 2017

Manual do Lenhador Sensível


Por Xico Sá

A fêmea é mesmo um jogo de adivinhação. Governar bem um desses seres colossais passa sobretudo pela nossa capacidade de correr à frente dos seus desejos. E realiza-los a contento.

Todas são naturalmente parecidas com aquela personagem de O piano – não falam e querem que a gente cumpra todas as funções, todos os trabalhos de Hércules. Precisamos adivinhar o momento certo de praticarmos sexo com alguma delicadeza. Um pouco antes disso, todavia, não podemos nos esquecer de correr à floresta, cortar lenha e pôr lenha à beira do fogão antes que venha a tempestade.

Homem sensível e lenhador ao mesmo tempo. Adivinhar onde quer ser tocada e também a hora da chuva. Isso é que querem as mulheres. O que implica o mais completo domínio de uma arte que junta conhecimento tântrico com a meteorologia. Preocupado com os meus párias, iniciei o esboço do Pequeno manual de adivinhação e encorajamento do macho diante do silêncio da fêmea e outros perturbadores, do qual subtraí os verbetes que seguem:

Fêmea sacudindo o vasto cabelo loiro – Esqueça esse tal de Marcel Proust, meu amigo, antes que ela confunda com outro personagem do mundo da velocidade e diga que preferia o Ayrton Senna. Corra em busca do tempo perdido e atraque no motel com cascata e teto para as estrelas mais próximo.

Fêmea sacudindo o cabelo castanho ou preto – Também quer sexo, mas adora falar antes sobre a personalidade de peixes-com-peixes, peixes-com-sagitário, peixes-com-virgem, numerologia, Caminho de Santiago, Paulo Coelho, búzios, cristais, a cura pelo vento...

Fêmea em mostra de filme francês – Diga à gazela, assim bem brega: “Se o Truffaut a tivesse conhecido, Bertrand, o Homem que Amava as Mulheres, teria final feliz – e seria com você.”

Fêmea silenciosa no café da manhã – Espere que ela consuma todo o líquido. Mire o fundo da xícara e arrisque uma leitura árabe da borra de café. Só assim será possível descobrir a demanda provocada ao longo do tempo pela sua incompetência.

Fêmea sentada na cama mirando a guarda-roupa – Ela vai experimentar um, dois, três vestidos: quatro, cinco saias: uma dúzia de blusas com calças tantas... Quando atingir o desespero, na tentativa do tubinho preto, pegue-a pelo braço, corra aso shopping mais próximo e realize o seu sonho de Uma Linda Mulher.

Fêmea no teste do biquíni – Ao perceber que ela ficou incomodada ao sentar pela primeira vez na areia daquele verão, não adianta nem mesmo a mais derramada e lírica das declarações de amor. Mesmo que você não saiba sequer a diferença entre estria e celulite, mesmo que prefira uma “botterinha”, não adianta convencê-la. Nada vai adiantar, nobilíssimo macho. Melhor presenteá-la com uma temporada de alcachofras num bucólico spa das redondezas.

Fêmea louca para repaginar o lar – Não tem jeito. Ela quer mudar o fogão, a cama, a mesa, os livros, os discos, os jarros... Não se aperreia, sob pena de ter lugar trocado também – sai o respeitável marido entra o nobre amante. A receita é entrar no embalo da nega, ajuda-la na missão. Esqueça a cara feia, mude pelo menos uma planta, um lírio de lugar.

Fêmea em pleno desejo de um rebento – Faça você mesmo, antes que ela torre o seu cartão de crédito em um banco de espermas qualquer, para dizer o mínimo.

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