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quinta-feira, setembro 24, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 91

 


91. Oriundo de uma família de nove irmãos, todos batizados com nomes iniciados pela letra “C” – provavelmente para o pai economizar na encomenda dos monogramas –, Cyro Monteiro nasceu no subúrbio carioca do Rocha.

Seu pai, dentista e funcionário público, era conhecido como “Capitão Monteiro”, título que talvez viesse da antiga Guarda Nacional ou, quem sabe, da habilidade de comandar nove filhos sem pedir reforço ao Exército.

A vocação artística corria no sangue da família. Cyro era sobrinho do lendário pianista Nonô (Romualdo Peixoto), o célebre “Chopin do samba”, um dos músicos mais requisitados do Rio de Janeiro, que ensaiava na casa dos Monteiros ao lado de Sílvio Caldas.

Como se não bastasse, os primos atendiam pelos nomes de Cauby, Araken, Andyara, Aracy e Moacyr Peixoto. Era praticamente um festival de talentos com buffet liberado.

Como cantor, Cyro revolucionou o samba com seu jeito sincopado de brincar com as sílabas, sempre acompanhado da inseparável caixinha de fósforos, que transformava em instrumento de percussão.

Também foi um pioneiro na arte de colecionar amigos. Se existisse rede social naquela época, teria mais seguidores do que o Flamengo em dia de título.

Vinícius de Moraes resumiu bem o fenômeno na contracapa do LP Senhor Samba, lançado em 1961: “Cyro é um grande abraço em toda a humanidade.” E não era exagero. Havia gente que queria cantar como Cyro, viver como Cyro e, principalmente, ser convidada para almoçar com Cyro.

Sua voz ajudou a eternizar sambas de Geraldo Pereira e influenciou intérpretes como Roberto Silva. Já o apelido “Formigão”, dado pelo parceiro Eratóstenes Frazão, permanece envolto em mistério.

Uns diziam que era pela paixão incontrolável por doces. Outros juravam que era por causa de uma verruga escura na testa. Há ainda uma terceira hipótese, nunca confirmada: ele farejava açúcar a três quarteirões de distância.

Outra marca registrada era o fanatismo pelo Flamengo. Sempre que um amigo tinha um filho, Cyro aparecia com uma camisa rubro-negra para o recém-nascido. O bebê nem sabia abrir os olhos e já era inscrito no campeonato carioca.

A ousadia inspirou Chico Buarque, tricolor convicto, a escrever o divertido “Ilmo. Sr. Cyro Monteiro ou Receita para virar casaca de neném”, dedicado à pequena Sílvia, sua filha com Marieta Severo, numa tentativa desesperada de salvar a criança da “influência flamenguista”.

Vinícius também eternizou a amizade entre Nonô e Cyro no célebre Samba da Bênção: “Você, sobrinho de Nonô.”

Mas, se existia um assunto no qual Cyro era unanimidade absoluta, era a gastronomia. O homem não fazia refeição, promovia uma intervenção militar no prato.

Todo sábado, chovesse canivete, granizo ou piano de cauda, dona Zica preparava sua lendária feijoada em regime de boca livre. A casa de Cartola virava uma espécie de ONU do samba: compositores, cantores, boêmios e amigos apareciam para tomar batida de maracujá, cantar até perder a voz e atacar uma feijoada capaz de reconciliar famílias brigadas há gerações.

Cyro, naturalmente, era o primeiro a chegar. Não por ansiedade. Era estratégia militar. Enquanto o resto da turma ainda discutia política, futebol e a última malandragem do bairro, ele já fazia o aquecimento gastronômico: um torresminho aqui, uma costelinha ali, um pedacinho de lombo acolá, uma cerveja para abrir o apetite, outra para confirmar a abertura e uma batidinha de maracujá para garantir que ainda existia espaço.

Quando a feijoada finalmente foi servida, por volta das quatro da tarde, o Formigão atacou três pratos monumentais. Não pratos comuns. Eram porções que fariam um estivador pedir intervalo.

Meia hora depois, resolveu ir ao banheiro aliviar o excesso de cerveja. No corredor, porém, começou a suar frio. Empalideceu. Encostou na parede. Fechou os olhos. A cena era digna de filme de suspense. Um dos convidados passou por ali, viu o estado do sambista e entrou em pânico.

– Corre! O Formigão tá passando mal!

Em segundos, instalou-se o tradicional “barata-voa”. Gente correndo para um lado, gente pedindo água, gente sugerindo médico, benzedeira, padre e, dependendo do grau do desespero, até técnico do Flamengo.

Dona Zica gelou. Imagine a manchete do dia seguinte: “Cyro Monteiro morre depois de comer feijoada de dona Zica.” Aquilo seria o fim da reputação culinária da anfitriã.

Sem perder tempo, correu ao quintal, colheu um punhado de ervas que só ela sabia identificar, preparou um chá tão forte que provavelmente ressuscitava até sambista desafinado e voltou às pressas.

– Toma, Formigão... bebe isso aqui. Vai levantar novinho em folha.

Fez-se silêncio. Todos prenderam a respiração. Cyro pegou a xícara fumegante, olhou para dona Zica, olhou para os amigos aflitos e perguntou, com a maior serenidade do mundo:

– Mas não tem nem uma bolachinha recheada para acompanhar?!

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