91. Oriundo de uma família de nove irmãos,
todos batizados com nomes iniciados pela letra “C” – provavelmente para o pai
economizar na encomenda dos monogramas –, Cyro Monteiro nasceu no subúrbio
carioca do Rocha.
Seu pai,
dentista e funcionário público, era conhecido como “Capitão Monteiro”, título
que talvez viesse da antiga Guarda Nacional ou, quem sabe, da habilidade de
comandar nove filhos sem pedir reforço ao Exército.
A vocação
artística corria no sangue da família. Cyro era sobrinho do lendário pianista
Nonô (Romualdo Peixoto), o célebre “Chopin do samba”, um dos músicos mais
requisitados do Rio de Janeiro, que ensaiava na casa dos Monteiros ao lado de
Sílvio Caldas.
Como se não
bastasse, os primos atendiam pelos nomes de Cauby, Araken, Andyara, Aracy e
Moacyr Peixoto. Era praticamente um festival de talentos com buffet liberado.
Como cantor,
Cyro revolucionou o samba com seu jeito sincopado de brincar com as sílabas,
sempre acompanhado da inseparável caixinha de fósforos, que transformava em
instrumento de percussão.
Também foi um
pioneiro na arte de colecionar amigos. Se existisse rede social naquela época,
teria mais seguidores do que o Flamengo em dia de título.
Vinícius de
Moraes resumiu bem o fenômeno na contracapa do LP Senhor Samba, lançado em
1961: “Cyro é um grande abraço em toda a humanidade.” E não era exagero. Havia
gente que queria cantar como Cyro, viver como Cyro e, principalmente, ser
convidada para almoçar com Cyro.
Sua voz ajudou
a eternizar sambas de Geraldo Pereira e influenciou intérpretes como Roberto
Silva. Já o apelido “Formigão”, dado pelo parceiro Eratóstenes Frazão,
permanece envolto em mistério.
Uns diziam que
era pela paixão incontrolável por doces. Outros juravam que era por causa de
uma verruga escura na testa. Há ainda uma terceira hipótese, nunca confirmada:
ele farejava açúcar a três quarteirões de distância.
Outra marca
registrada era o fanatismo pelo Flamengo. Sempre que um amigo tinha um filho,
Cyro aparecia com uma camisa rubro-negra para o recém-nascido. O bebê nem sabia
abrir os olhos e já era inscrito no campeonato carioca.
A ousadia
inspirou Chico Buarque, tricolor convicto, a escrever o divertido “Ilmo. Sr.
Cyro Monteiro ou Receita para virar casaca de neném”, dedicado à pequena
Sílvia, sua filha com Marieta Severo, numa tentativa desesperada de salvar a
criança da “influência flamenguista”.
Vinícius também
eternizou a amizade entre Nonô e Cyro no célebre Samba da Bênção: “Você,
sobrinho de Nonô.”
Mas, se existia
um assunto no qual Cyro era unanimidade absoluta, era a gastronomia. O homem
não fazia refeição, promovia uma intervenção militar no prato.
Todo sábado,
chovesse canivete, granizo ou piano de cauda, dona Zica preparava sua lendária
feijoada em regime de boca livre. A casa de Cartola virava uma espécie de ONU
do samba: compositores, cantores, boêmios e amigos apareciam para tomar batida
de maracujá, cantar até perder a voz e atacar uma feijoada capaz de reconciliar
famílias brigadas há gerações.
Cyro,
naturalmente, era o primeiro a chegar. Não por ansiedade. Era estratégia
militar. Enquanto o resto da turma ainda discutia política, futebol e a última
malandragem do bairro, ele já fazia o aquecimento gastronômico: um torresminho
aqui, uma costelinha ali, um pedacinho de lombo acolá, uma cerveja para abrir o
apetite, outra para confirmar a abertura e uma batidinha de maracujá para
garantir que ainda existia espaço.
Quando a
feijoada finalmente foi servida, por volta das quatro da tarde, o Formigão
atacou três pratos monumentais. Não pratos comuns. Eram porções que fariam um
estivador pedir intervalo.
Meia hora
depois, resolveu ir ao banheiro aliviar o excesso de cerveja. No corredor,
porém, começou a suar frio. Empalideceu. Encostou na parede. Fechou os olhos. A
cena era digna de filme de suspense. Um dos convidados passou por ali, viu o
estado do sambista e entrou em pânico.
– Corre! O
Formigão tá passando mal!
Em segundos,
instalou-se o tradicional “barata-voa”. Gente correndo para um lado, gente
pedindo água, gente sugerindo médico, benzedeira, padre e, dependendo do grau
do desespero, até técnico do Flamengo.
Dona Zica
gelou. Imagine a manchete do dia seguinte: “Cyro Monteiro morre depois de comer
feijoada de dona Zica.” Aquilo seria o fim da reputação culinária da anfitriã.
Sem perder
tempo, correu ao quintal, colheu um punhado de ervas que só ela sabia
identificar, preparou um chá tão forte que provavelmente ressuscitava até
sambista desafinado e voltou às pressas.
– Toma,
Formigão... bebe isso aqui. Vai levantar novinho em folha.
Fez-se
silêncio. Todos prenderam a respiração. Cyro pegou a xícara fumegante, olhou
para dona Zica, olhou para os amigos aflitos e perguntou, com a maior
serenidade do mundo:
– Mas não tem
nem uma bolachinha recheada para acompanhar?!
Nenhum comentário:
Postar um comentário