97. Abril de 1995. Enquanto matava o tempo antes de encarar o Morro da Liberdade para mais uma edição do antológico Pagode da Resistência, o empresário Zé Picanço estacionou no Bar da Carmona, em Educandos.
Instalou-se numa mesa estratégica, pediu uma cerveja estupidamente
gelada e começou a fazer o que sabia melhor: combater a desidratação.
Nem tinha
chegado à segunda garrafa quando surgiu um fantasma da adolescência: Carlos
Estevão. Ele abraçou o amigo, puxou uma cadeira sem pedir licença e já
desembarcou na conversa com a cara de quem vinha carregar um piano.
– Porra, Zé
Picanço, graças a Deus te encontrei! Tu és um sujeito vivido, passado na casca
do alho, diplomado pela Universidade da Vida. Preciso de um conselho.
O empresário
fez sinal para o garçom trazer outra cerveja. Sabia que conselho de graça
costuma sair caro.
– Tu ainda te
lembras da Ercília, aquela passista da Batucada do Rio Negro?
– Lembro. Se
lembro...
– Pois é. Estou
casado com ela faz três anos. Ano passado ela entrou na Semp-Toshiba e caiu nas
graças de um supervisor que é uma mãe. Todo fim de mês o cidadão aparece com um
mimo: já deu tênis da Nike, pulseira da Vivara, bolsa da Arezzo, calça Fuga de Lula...
Enfim, o homem tem um carinho quase corporativo pela minha esposa.
Zé Picanço apenas
arqueou uma sobrancelha. Carlos Estevão prosseguiu, completamente alheio ao
tamanho da encrenca:
– O problema é
que mês que vem é aniversário do supervisor. A Ercília quer que eu compre um
presente pra ele. O que tu achas que eu devo dar?
Zé Picanço
pousou lentamente o copo sobre a mesa, respirou como um monge tibetano prestes
a revelar um grande ensinamento e respondeu com a serenidade de um filósofo de
botequim:
– Dá uma
chifrada nele.
Carlos Estevão arregalou
os olhos.
– Como é?
– Uma chifrada.
Porque presente, meu amigo, ele já vem ganhando há muito tempo. E a tua
cara-metade sabe disso...
Dizem que
Carlos Estevão levantou da cadeira tão rápido que quase pediu impedimento ao
garçom. Saiu cuspindo fogo, esbravejando contra a falta de sensibilidade do
amigo e jurando nunca mais voltar àquele boteco. Meses depois, chegou a notícia
inevitável: Ercília largou Carlos Estevão e foi morar justamente com o tal
supervisor.
Naquele dia,
ficou provado que Zé Picanço não era empresário. Era vidente. Só faltava cobrar
consulta e atender de turbante.

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