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sexta-feira, setembro 25, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 97

 

O saudoso sambista e empresário Zé Picanço

97. Abril de 1995. Enquanto matava o tempo antes de encarar o Morro da Liberdade para mais uma edição do antológico Pagode da Resistência, o empresário Zé Picanço estacionou no Bar da Carmona, em Educandos. 

Instalou-se numa mesa estratégica, pediu uma cerveja estupidamente gelada e começou a fazer o que sabia melhor: combater a desidratação.

Nem tinha chegado à segunda garrafa quando surgiu um fantasma da adolescência: Carlos Estevão. Ele abraçou o amigo, puxou uma cadeira sem pedir licença e já desembarcou na conversa com a cara de quem vinha carregar um piano.

– Porra, Zé Picanço, graças a Deus te encontrei! Tu és um sujeito vivido, passado na casca do alho, diplomado pela Universidade da Vida. Preciso de um conselho.

O empresário fez sinal para o garçom trazer outra cerveja. Sabia que conselho de graça costuma sair caro.

– Tu ainda te lembras da Ercília, aquela passista da Batucada do Rio Negro?

– Lembro. Se lembro...

– Pois é. Estou casado com ela faz três anos. Ano passado ela entrou na Semp-Toshiba e caiu nas graças de um supervisor que é uma mãe. Todo fim de mês o cidadão aparece com um mimo: já deu tênis da Nike, pulseira da Vivara, bolsa da Arezzo, calça Fuga de Lula... Enfim, o homem tem um carinho quase corporativo pela minha esposa.

Zé Picanço apenas arqueou uma sobrancelha. Carlos Estevão prosseguiu, completamente alheio ao tamanho da encrenca:

– O problema é que mês que vem é aniversário do supervisor. A Ercília quer que eu compre um presente pra ele. O que tu achas que eu devo dar?

Zé Picanço pousou lentamente o copo sobre a mesa, respirou como um monge tibetano prestes a revelar um grande ensinamento e respondeu com a serenidade de um filósofo de botequim:

– Dá uma chifrada nele.

Carlos Estevão arregalou os olhos.

– Como é?

– Uma chifrada. Porque presente, meu amigo, ele já vem ganhando há muito tempo. E a tua cara-metade sabe disso...

Dizem que Carlos Estevão levantou da cadeira tão rápido que quase pediu impedimento ao garçom. Saiu cuspindo fogo, esbravejando contra a falta de sensibilidade do amigo e jurando nunca mais voltar àquele boteco. Meses depois, chegou a notícia inevitável: Ercília largou Carlos Estevão e foi morar justamente com o tal supervisor.

Naquele dia, ficou provado que Zé Picanço não era empresário. Era vidente. Só faltava cobrar consulta e atender de turbante.

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