95. Agosto de 1994. Atendendo a um convite
do GRES Reino Unido da Liberdade, a cantora Jovelina Pérola Negra desembarcou
em Manaus para um show num badalado boteco do Vieiralves, reduto da boemia
fina, onde o chope era gelado e a conta sempre vinha quente.
Como toda
turista que pisava na Zona Franca naquela época, Jovelina fez o ritual
obrigatório: saiu às compras. Voltou carregada de sacolas, feliz da vida,
exibindo uma coleção de sapatos italianos da Arezzo, todos de verniz vermelho e
salto agulha, comprados na Clark's por um preço tão baixo que parecia erro de
etiqueta. Levou doze pares. Afinal, quem resiste a uma pechincha internacional?
O problema é
que ela resolveu estrear justamente um deles na noite do espetáculo.
Uma hora antes
do show, comentou, sem muito alarde:
– Esse sapato
está me beliscando.
Ninguém deu
importância. Artista reclama de tudo: do som, da luz, do camarim, da
temperatura da cerveja...
Meia hora
depois, porém, o sapato já tinha transformado os pés da cantora numa espécie de
mapa em relevo da Cordilheira dos Andes. Eram bolhas, calos, vergões e uma
expressão de dor que faria qualquer ortopedista pedir reforço.
Ela descalçou o sapato e exigiu que a produção do show providenciasse uma sandália.
Começou então
uma operação de guerra. Revistaram camarins, mesas, cozinhas e até o carro de
um garçom. Apareciam sandálias de todas as cores, modelos e procedências. O
único detalhe era que nenhuma passava da metade do pé de Jovelina. Parecia que
Manaus inteira calçava 36. A cantora perdeu a paciência.
– Eu não sou o
João do Vale pra cantar descalça! Ou aparece uma sandália ou não aparece
cantora!
Foi o
suficiente para instalar o estado de calamidade pública. Bosco Saraiva,
presidente de honra da Reino Unido, assumiu pessoalmente o comando da missão.
Parecia um general procurando um doador compatível de calçados. Vasculhou o
boteco inteiro, interrogou clientes, mobilizou amigos, agregados e até gente
que só tinha ido ali tomar uma cervejinha em paz.
Quando o
relógio marcava cinco minutos para o início do show e o público já batucava nas
mesas, surgiu a salvação. Uma sandália de couro, estilo franciscana, número 44,
tão surrada que parecia ter acompanhado a construção da Ponte Rio-Niterói.
Jovelina
calçou. Serviu perfeitamente. Olhou para a sandália, torceu o nariz e decretou:
– A cor é meio
morta, mas vai essa mesma.
As luzes se
acenderam. O samba começou. E Jovelina fez um show antológico.
Quem não teve a
mesma sorte foi o verdadeiro dono da sandália: o compositor Nonato Galúcio. Passou
o espetáculo inteiro descalço, caminhando pelo boteco com a delicadeza de quem
atravessa um campo minado, desviando de cacos de gelo, tampinhas de garrafa e,
principalmente, das bitucas de cigarro que os próprios parceiros da ala de
compositores da Reino Unido faziam questão de atirar debaixo da sua mesa, numa
demonstração de amizade que beirava a tentativa de homicídio.
No fim das
contas, Jovelina saiu de Manaus levando doze pares de sapatos novos e uma surrada
sandália franciscana. Não foi pouca porcaria.

Nenhum comentário:
Postar um comentário