98. Novembro de 1968. A casa da Dona Alaíde, mãe do Luiz Pepéu, ficava em cima de um barranco de quase dois metros de altura e o terreiro da residência havia virado um campinho de futebol de dois contra dois.
Um dia, na falta do que fazer, Pepéu pegou uma bola “casca de ovo” do tipo médio, abriu um furo minúsculo em uma das imitações de gomo e encheu a bola de pedra jacaré.
A bola “casca de ovo”, que recebera esse apelido por ser extremamente leve, ficou pesando uns quinze quilos.
Ele colocou a bola no meio da Rua Parintins e ficou
esperando um incauto cidadão passar.
Lá pelas
tantas, surge no começo da rua o peixeiro Bacaba, vindo de mais um extenuante
dia de batalha. Assim que Bacaba se aproximou da bola, Pepéu deu um grito:
– Meu amigo, dá
pra você chutar essa bola de volta pra cá, pra gente continuar a nossa
pelada?...
Bacaba tirou o tabuleiro da cabeça e colocou no chão. Descalçou a velha sandália japonesa. Enrolou uma das pernas da calça até o meio da canela. Tomou uns seis metros de distância (ele sabia que a bola “casca de ovo” era extremamente leve), aí saiu correndo em direção à bola feito um alucinado e meteu o pé na bola com vontade, de bico.
A bola rolou um palmo. A unha do dedão do pé do Bacaba virou farelo. O
próprio dedão do pé quebrou na mesma hora.
Pulando feito
um saci e urrando de dor, Bacaba não economizou nos impropérios e ameaças:
– Eu vou te
matar, seu filho da puta! Eu vou fazer picadinho de ti, seu corno velho! Eu vou
enfiar minha peixeira no teu bucho, seu viado filho da puta!
Pepéu e os
outros moleques, claro, saíram correndo pro quintal da residência e passaram
uns três meses sem colocar os pés na rua com medo da vingança do peixeiro.

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