93. Dona de uma elegância que fazia os
jurados esquecerem até de piscar, a eterna musa do carnaval amazonense Ednelza
Sahdo desfilava como porta-estandarte da Mocidade de Aparecida quando
protagonizou uma das maiores demonstrações de profissionalismo da história da
Avenida. Ou de teimosia. Dependendo do ponto de vista.
Naquela noite,
Ednelza rodopiava com a leveza de uma bailarina do Teatro Bolshoi. Cada giro
parecia calculado por um engenheiro suíço, cada sorriso parecia ensaiado diante
do espelho desde o nascimento. Foi então que entrou em cena a maior inimiga da
alta-costura carnavalesca: uma miserável tira de ráfia.
Não era uma
ráfia qualquer. Era uma sobrevivente. Restara no asfalto depois da passagem de
alguma escola de samba tão furreca que nem o caminhão da limpeza teve coragem
de assumir a autoria. A danada resolveu escolher sua vítima. Enroscou-se
primeiro na sandalinha de lamê de Ednelza. Depois resolveu subir de categoria.
Prendeu-se no dedão do pé da porta-estandarte com a determinação de um fiscal
da Receita Federal.
Ednelza tentou
livrar-se da invasora sem interromper a coreografia. Girava, sambava, sorria,
fazia pose, mexia discretamente o pé...
Nada. A ráfia
já tinha escritura registrada no dedão.
O mestre-sala
percebeu o drama. Sem perder a elegância, deu uma volta completa, ajoelhou-se
diante da parceira como um cavaleiro medieval salvando sua princesa e agarrou a
maldita. Pensou: “É só dar uma puxadinha...”
Foi a maior
subestimação desde o Titanic dizendo que era inafundável. O mestre-sala puxou.
A ráfia veio. Só que resolveu trazer um souvenir. Veio agarrada com metade da
unha do dedão de Ednelza.
O sorriso da
porta-estandarte congelou por um milésimo de segundo. Seu rosto desenhou uma
careta capaz de resumir todas as dores da humanidade, da extração de siso ao
imposto de renda. Os olhos se encheram de lágrimas. Mas apenas por um instante.
No segundo
seguinte, lá estava ela novamente. Sorrindo. Girando. Sambando. Saudando os
jurados como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso, o dedão provavelmente
já telefonava para a Associação Brasileira das Unhas pedindo intervenção
imediata.
O público não
percebeu. Os jurados também não. Só quem estava perto viu que, a cada giro,
Ednelza travava uma silenciosa negociação entre a elegância e uma dor capaz de
fazer muito marmanjão pedir aposentadoria por invalidez.
A Mocidade de
Aparecida conquistou mais um campeonato. E a verdadeira campeã da noite foi
Ednelza Sahdo. Porque vencer desfile é difícil. Agora, desfilar sorrindo depois
de perder metade da unha do dedão do pé em pleno Sambódromo... isso já entra na
categoria das coisas que só acontecem com porta-estandarte de escola de samba.
Ou com quem fez um pacto solene de jamais deixar uma mísera ráfia estragar um
título.

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