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quinta-feira, setembro 24, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 93

 


93. Dona de uma elegância que fazia os jurados esquecerem até de piscar, a eterna musa do carnaval amazonense Ednelza Sahdo desfilava como porta-estandarte da Mocidade de Aparecida quando protagonizou uma das maiores demonstrações de profissionalismo da história da Avenida. Ou de teimosia. Dependendo do ponto de vista.

Naquela noite, Ednelza rodopiava com a leveza de uma bailarina do Teatro Bolshoi. Cada giro parecia calculado por um engenheiro suíço, cada sorriso parecia ensaiado diante do espelho desde o nascimento. Foi então que entrou em cena a maior inimiga da alta-costura carnavalesca: uma miserável tira de ráfia.

Não era uma ráfia qualquer. Era uma sobrevivente. Restara no asfalto depois da passagem de alguma escola de samba tão furreca que nem o caminhão da limpeza teve coragem de assumir a autoria. A danada resolveu escolher sua vítima. Enroscou-se primeiro na sandalinha de lamê de Ednelza. Depois resolveu subir de categoria. Prendeu-se no dedão do pé da porta-estandarte com a determinação de um fiscal da Receita Federal.

Ednelza tentou livrar-se da invasora sem interromper a coreografia. Girava, sambava, sorria, fazia pose, mexia discretamente o pé...

Nada. A ráfia já tinha escritura registrada no dedão.

O mestre-sala percebeu o drama. Sem perder a elegância, deu uma volta completa, ajoelhou-se diante da parceira como um cavaleiro medieval salvando sua princesa e agarrou a maldita. Pensou: “É só dar uma puxadinha...”

Foi a maior subestimação desde o Titanic dizendo que era inafundável. O mestre-sala puxou. A ráfia veio. Só que resolveu trazer um souvenir. Veio agarrada com metade da unha do dedão de Ednelza.

O sorriso da porta-estandarte congelou por um milésimo de segundo. Seu rosto desenhou uma careta capaz de resumir todas as dores da humanidade, da extração de siso ao imposto de renda. Os olhos se encheram de lágrimas. Mas apenas por um instante.

No segundo seguinte, lá estava ela novamente. Sorrindo. Girando. Sambando. Saudando os jurados como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso, o dedão provavelmente já telefonava para a Associação Brasileira das Unhas pedindo intervenção imediata.

O público não percebeu. Os jurados também não. Só quem estava perto viu que, a cada giro, Ednelza travava uma silenciosa negociação entre a elegância e uma dor capaz de fazer muito marmanjão pedir aposentadoria por invalidez.

A Mocidade de Aparecida conquistou mais um campeonato. E a verdadeira campeã da noite foi Ednelza Sahdo. Porque vencer desfile é difícil. Agora, desfilar sorrindo depois de perder metade da unha do dedão do pé em pleno Sambódromo... isso já entra na categoria das coisas que só acontecem com porta-estandarte de escola de samba. Ou com quem fez um pacto solene de jamais deixar uma mísera ráfia estragar um título.

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