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sexta-feira, setembro 25, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 100

 

A cantora Alcione no início da carreira

100. O Cantor e compositor Francisco Ferreira da Silva, o nosso popular Chico da Silva, nasceu no dia 8 de maio de 1945, na zona rural de Parintins, na região do rio Uaicurapá, filho de Antônio Soares da Silva e Edvirgem Ferreira da Silva. 

Seu pai era cearense, descendente de portugueses e espanhóis. Sua mãe era acreana, descendente de africanos. Antônio e Edvirgem se conheceram em um seringal em Xapuri (AC), namoraram, noivaram, casaram e se mudaram para Parintins, em busca de uma vida melhor.

A mãe de Chico da Silva faleceu quando ele estava com três anos e o pai, quando ele estava com dez anos. Órfão de pai e mãe, Chico da Silva foi adotado pela professora Guajarina Nazaré Prestes, que cuidou do moleque como se fosse seu filho biológico. 

Por intermédio do bispo de Parintins, Dom Arcângelo Cérqua, Dona Guajarina soube da existência da Escola Técnica Federal de Manaus e encaminhou o filho para ser internado naquele educandário, depois que o mesmo foi aprovado no exame seletivo para ingressar na instituição. Chico da Silva cursou o Ginásio Industrial Básico, tornando-se torneiro mecânico, chegando a trabalhar em algumas oficinas de refrigeração da cidade por alguns anos.

Em 1966, em busca de uma vida melhor, Chico da Silva, aos 21 anos, viajou para São Paulo. Depois de muito peregrinar, foi admitido como torneiro mecânico na Indústria Villares, em São Bernardo dos Campos, no ABC paulista, onde se concentravam várias indústrias. 

Ele teve como companheiro de seção um torneiro mecânico da mesma idade, chamado Luís Inácio da Silva, que não tinha o dedo mínimo da mão esquerda cortado por uma prensa dois anos antes.  

Nessa época, o torneiro mecânico Luís Inácio passou a se envolver nos movimentos sindicais, levado por seu irmão José Ferreira da Silva, conhecido por Frei Chico. O torneiro mecânico Chico da Silva preferiu se aproximar do meio musical, cantando nas noites paulistas como intérprete de vários sambistas brasileiros, como Noite Ilustrada e Zé Kéti.

Quem primeiro descobriu a bonita sonoridade vocal daquele sambista amazonense foi o cantor Jair Rodrigues. Ele ficou tão empolgado que levou Elis Regina para ouvir Chico da Silva cantando no Bar do Léo. Os três ficaram amigos íntimos (Chico da Silva chegou a escrever um samba para a “Pimentinha”, intitulado “A Batuta”, em 1970, que só foi gravado em 1991, pela cantora amazonense Lucilene Castro).

Em 1956, os compositores Marcos Cavalcanti de Albuquerque, o “Venâncio”, e José do Espírito Santo, o “Curumba”, criaram o inesquecível baião “Último Pau de Arara”, que se transformou em uma das músicas mais conhecidas do cancioneiro nordestino. O baião fez tanto sucesso que foi gravado por Luiz Gonzaga, Ari Lobo, Catulo de Paula, Quinteto Violado, Clara Nunes, Fagner, Maria Bethânia, Sérgio Reis, Caetano Veloso, Zé Ramalho, Teca Calazans, Gilberto Gil, Caju & Castanha, Carmélia Alves e Jair Rodrigues.

Em 1975, 20 anos depois, o cantor Jair Rodrigues apresentou Venâncio a Chico da Silva. Os dois se tornaram amigos e parceiros. Nesse mesmo ano, Alcione, a “Marrom”, havia lançado seu primeiro disco, “A Voz do Samba”, cujo carro-chefe era a música “O Surdo”, de Paulinho Resende e Totonho:

– Amigo, que ironia desta vida / Você chora na avenida / Pro meu povo se alegrar / Eu bato forte / E aqui dentro do peito uma dor / Me destrói / Mas você me entende / E diz que pancada de amor não dói / Meu surdo, parece absurdo / Mas você me escuta / Bem mais que os amigos lá do bar / Não deixa que a dor / mais lhe machuque / Pois pelo seu batuque / Eu dou fim ao meu pranto e começo a cantar / Meu surdo, bato forte no seu couro / Só escuto este teu choro / Que os aplausos vem pra consolar / Meu surdo velho amigo e companheiro / Da avenida e de terreiro /De rodas de samba e solidão / Não deixe que eu vencido de cansaço / Me descuide desse abraço / E desfaça o compasso do passo do meu coração.

Um dia, durante uma conversa com Venâncio, Chico da Silva tocou na ferida:

– Eu gosto muito desse samba da Marrom, compadre, mas esse papo de que o surdo chora numa roda de samba é uma tremenda cascata... O surdo é de marcação, só apanha de vez em quando! Quem se fode mesmo numa roda de samba é o pandeiro! Esse sim, apanha pra caralho! Você não acha, compadre?...

– Eu acho sim, parceiro, eu acho sim! Que tal se a gente fizesse uma música corrigindo essa injustiça e colocando na letra o ponto de vista do próprio pandeiro?...

– É por aí mesmo, compadre, é por aí mesmo!

Um mês depois, os dois compositores haviam feito “Pandeiro É Meu Nome”:

– Falaram que meu companheiro / Meu amigo surdo parece absurdo / Apanha por tudo / Ninguém canta samba / Sem ele apanhar / Não ouviram que seu companheiro / Amigo pandeiro / Também tira coco do mesmo coqueiro / Apanha sorrindo pro povo cantar / Pandeiro / Não é absurdo mas é o meu nome / Não me chamo surdo mas aguento fome / Pandeiro não come mas pode apanhar / Ao povo que vibra na força do som brasileiro / Não é só surdo nem só o pandeiro / Tem uma família tocando legal / Você cantando, tocando e batendo na gente / Passando por tudo tão indiferente / Não conhece a dor do instrumental / Batuqueiro ê, batuqueiro / Cantando samba pode bater no pandeiro.

A música foi mostrada pra Alcione, que adorou a composição e incluiu no seu terceiro disco “Pra Que Chorar”, de 1977. Puxado pelo hit instantâneo de Chico da Silva e Venâncio, o novo LP da Marrom vendeu 400 mil cópias, praticamente o dobro dos LPs anteriores.

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