102. Março de 1980. Por volta do meio-dia do domingo gordo de Carnaval, o contabilista Olíbio Trindade (aka “Olíbio Xiri”), acompanhado do gorducho advogado Zé Augusto, apareceu no Bar do Aristides fantasiado de uma mulher totalmente “divina maravilhosa”.
Olíbio estava de saia
rodada estampada, bustiê amarelo-canário, colares, pulseiras (“escravas”) e
brincos de argola, que lhe davam um insuspeitíssimo ar de cartomante cigana. Zé
Augusto estava fantasiado de melindrosa de cinema mudo, com direito a piteira e
peruca Chanel.
Dali a meia
hora, dois cunhados de Olíbio, Mazinho e Nilsinho Santos, também apareceram no
boteco fantasiados do mesmo jeito – Mazinho de tailleur de executiva, o que
incluía salto alto de 15 cm, e Nilsinho, de Carmem Miranda, com direito a
turbante na cabeça com arranjos de frutas tropicais. Olíbio explicou a
presepada:
– A Emamtur
liberou a avenida João Alfredo pro desfile de blocos de sujos até às 17h. Uns
dez amigos do Nilsinho vão se fantasiar de mulher e a gente ficou de se
encontrar com eles na avenida pra zoar um pouco. Nós quatro vamos no meu carro.
A gente vai estacionar ali no Boulevard Amazonas e ir andando até cair na
gandaia. Você não está a fim de ir não?...
A ficha custou
a cair. Era o primeiro ano que o desfile carnavalesco seria feito na avenida
João Alfredo. Pelas novas regras da Emamtur, 15 blocos desfilariam no domingo,
30 blocos na segunda-feira e os cinco blocos melhores classificados desfilariam
na terça-feira, antes do desfile das escolas de samba. Desses cincos sairia o
campeão do carnaval na categoria.
No domingo,
desfilariam os seguintes blocos: Piratas, Aiatolá, Na Folia, Morro Pede
Passagem, Uirapuru, Cordão das Lavadeiras, Taboca, Liberdade, Lira de Prata,
Andanças de Ciganos, Caxangá na Folia, Coroas, Sem Compromisso, Mocidade
Dependente do Beco Ipixuna e Árabes na Folia.
Na
segunda-feira seria a vez dos Jovens Livres na Folia, Soretumar, São Raimundo,
Sinal Verde, Feijão Maravilha, Onça, Cassino Tex, Vila Nova na Folia, Portugal
sem Passaporte, Papel Bordado, Belezas Naturais, Unidos da Raiz, Acadêmicos do
Morro, Unidos da Cophasa, Quem São Eles, Magistral na Folia, Linguarudos,
Movido a Álcool, Consulado das Puras, Cadê o Mé?, Olha Nós Aí, Pipocas, Bloco
dos Sujos, As Dengosas, Topless, Olívia Pinto, Magnatas das Arábias, Embalo’s,
Som Colorido e Dismac.
Eu já estava
meio calibrado, mas calculei que dava tempo de desfilar no bloco dos sujos até
às 17h, voltar pra Caxuxa, e participar do desfile do Andanças de Ciganos às
21h. Para completar, o Olíbio Xiri estava com uma sacola dentro do carro que
ainda continha meia dúzia de perucas. Arranjar um vestido era o de menos.
Perguntei do meu irmão Simas Pessoa, que bebia comigo, o que ele achava da
ideia:
– Bicho, se tu
fores eu também vou! – garantiu.
Cada um de nós
dois colocou uma peruca na cabeça e continuamos bebendo.
Dali a pouco,
surgiu no boteco o Rubens Bentes e estranhou o fato de estarmos usando perucas
de mulher. Expliquei o plano. Ele já foi pegando uma peruca na sacola e
colocando na cabeça. O Arlindo Jorge chegou dali a pouco, se inteirou da
história e também colocou uma peruca na cabeça. O Rubens providenciou vestidos,
saias e blusas de suas irmãs. Nós trocamos de roupa no próprio bar, sob o olhar
de reprovação do pessoal que jogava sinuca.
Meia hora depois, Raquel, uma das irmãs do Rubens, subiu a ladeira e entrou no boteco para nos maquiar. Haja sombras, cílios postiços, pó-compacto, blush, glass, delineador e batons em cores escandalosas.
Ela gastou metade do seu estojo da
Avon, mas nos transformou em travestis de classe mundial. Compramos quatro
caixas de cerveja em lata, colocamos duas em cada carro e fomos pra guerra. No
carro do Arlindo Jorge, ele, Simas, eu e Rubens. No do Olíbio Xiri, ele,
Mazinho, Nilsinho e Zé Augusto.
Deixamos os
carros ao lado do cemitério São João Batista e assim que começamos a caminhar
em direção ao fuzuê, Rubens teve uma ideia brilhante:
– Vamos
protestar contra a política econômica do general Figueiredo. Em vez de jogar
confete na multidão, nós vamos jogar feijão e arroz...
Nem discutimos.
Entramos em uma mercearia e cada um comprou um saco de 10 kg de feijão jalo (o
mais caro) e outro de arroz agulhinha perbolizado (também o mais caro). Nos
juntamos a uma turma de uns vinte sujeitos também fantasiados de mulher, que
estavam vindo do centro da cidade e possuíam alguns instrumentos de percussão,
e adentramos a passarela do samba. Viramos amigos de infância dos sujeitos.
Desconfio de
que o nosso bloco de sujos foi o que causou mais confusão interativa com a
plateia. É que em vez de jogar feijão e arroz sobre a assistência, nossos novos
amigos nos convenceram a dar o alimento para os interessados. A gente parava em
frente a um lance da arquibancada e perguntava:
– Vocês querem
feijão? Vocês querem arroz?...
Sei lá como, mas de repente apareciam vários sacos plásticos vazios estendidos pelos populares. A gente colocava uns 200 gramas de feijão e de arroz em cada um deles e prosseguíamos a caminhada.
No meio do desfile, o nosso estoque acabou.
Sem querer, havíamos distribuído 160 kg de alimentos para as pessoas carentes.
Se tivessem 500 blocos iguais ao nosso, teríamos erradicado a fome naquele dia.
Por volta das 18h, retornamos pra Cachoeirinha. Quando passávamos em frente ao Cine Ypiranga, Olíbio fez sinal pra gente parar. Estacionamos os carros e fomos tomar a saideira em frente ao Clube Ypiranga, que estava ultimando os preparativos para seu carnaval daquela noite.
Aos nos verem daquele jeito, a Turma do Pitombão,
ali da Castelo Branco, foi à loucura. Muitos deles tinham vontade de fazer
aquilo, mas nunca tinham tido coragem. Conversaram animadamente com a gente,
querendo saber detalhes daquela experiência inédita.
Quem também já estava com a ideia de colocar um bloco de sujos na rua eram os brincantes da quadrilha Juventude na Roça, que ensaiavam na casa do Alvadir Assunção (sua esposa, Terezinha Peixoto, era a responsável pela quadrilha).
Eles já desfilavam no bloco Andanças de Ciganos e no GRES Em Cima da Hora, de Educandos. Bastava pegar as fantasias femininas da quadrilha caipira e dar um trato, que o bloco estava pronto para desfilar.
O folião Jucimar Barroso de
Souza deu o nome do bloco: “Aluga-se Moças”. O estudante Alvatir Carolino
arregimentou os brincantes: Onesmo Gomes Jr., João Jururu, Tonny e Dennys
Santos, Junior Perturbado, Preto Fernando, Raimundo Pinho, etc. Dona Zoraide
Mota, tia do Alvatir, remodelou as roupas femininas da quadrilha para caber na
macharada.
Em 1981, a
Turma da Juventude na Roça se juntou com a Turma do Pitombão (Romito, Reinaldo,
Jairo Caramanho, Belisca, Gilberto, Edinho, Fonseca, Mimico, etc), todos eles
fantasiados de mulher, alugaram um trio elétrico, colocaram uma Miss Simpatia
em cima do trio elétrico (o fantástico Gilson Brabo, de biquíni prateado,
peruca loura, coroa, cetro e faixa) e se dirigiram ao Bar do Aristides, onde já
havia uns cem sujeitos fantasiados de mulher.
Nascia o bloco “Aluga-se Moças”, que desfilava pelas ruas da Caxuxa, depois se dirigia até a Av. João Alfredo, atravessava a passarela do samba de ponta a ponta e retornava para o Clube Ypiranga, numa verdadeira maratona etílica.
O nome do bloco, com
aquele espetacular erro de concordância, era uma homenagem ao filme homônimo de
pornochanchada estrelado por Gretchen, Rita Cadillac e Xuxa Meneghel.
Nos últimos
desfiles em que participei, no final dos anos 80, o gigantismo do bloco já
começava a assustar os desavisados. Eram cerca de 3 mil foliões, os homens
invariavelmente fantasiados de mulheres e as mulheres fantasiadas de homens.
Apesar do
grande consumo de álcool nunca houve brigas, provavelmente porque quase todos
os brincantes também desfilavam no GRES Andanças de Ciganos.
O desfile do bloco, entretanto, dava muita dor de cabeça para a nossa eterna Miss Simpatia. Espada-matador juramentado em cartório, Gilson Brabo não bebia e nem fumava, mas aceitava desfilar de miss, numa boa.
Para complicar, sua família era
evangélica. Depois de quatro horas sob um sol escaldante, as marcas brancas do
minúsculo sutiã e da faixa de miss em sua pele bronzeada eram uma bandeira e
tanto. Gilson Brabo passava seis meses sem tirar a camisa na frente dos
parentes, para não ser excomungado pelo seu “suposto” homossexualismo
enrustido. Mas, no ano seguinte, se apresentava espontaneamente para passar
pela mesma provação. Um santo!
Em meados dos anos 90, Arlindo Jorge Mubarac e Sici Pirangy deram um golpe de estado na agremiação informal, apearam Romito da direção do bloco e eles próprios assumiram o controle da brincadeira.
Desde a sua fundação, era Romito que contratava o trio elétrico, convocava os brincantes e providenciava a documentação necessária para o bloco desfilar pelas ruas. Injuriado com a desfeita, Romito abandonou o barco.
Ocorre que Sici e Arlindo não conseguiram
contratar um trio elétrico, não convocaram os brincantes e nem providenciaram a
documentação necessária para a zoeira ocupar as ruas da cidade. Resultado: o
bloco simplesmente deixou de existir. Acontece. Cada uma.


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