104. Junho de 1977. Empolgados com o sucesso do hit “Pandeiro É Meu Nome”, Chico da Silva e Venâncio começaram a compor febrilmente para um futuro disco do cantor parintinense que, segundo Jair Rodrigues, possuía uma das vozes mais melodiosas da nova safra de sambistas brasileiros.
Dessa parceria saem pérolas como “Barba Azul”, “A Volta Ao Mundo em 30 Segundos”, “A Chave”, “Esquadrão do Samba”, “Amor Sem Juízo”, “Aquarela
Amazonense” e “Tudo Mudou”.
Os artistas de primeira linha da gravadora Philips, como Chico Buarque de Holanda e Alcione, gravavam pelo selo “Philips”. Os artistas em início de carreira gravavam pelo selo “Polydor”. Os produtores dos dois selos, entretanto, eram os mesmos.
Chico
da Silva mostrou para os executivos da gravadora 20 sambas, para 12 serem
escolhidos para o repertório do disco, e avisou que, se fosse gravar, queria
que a música de trabalho do LP fosse o samba “Sufoco”, dele e de Antônio José.
Ele cantou a música para os executivos ouvirem:
– Não sei se
vou aturar / Esses seus abusos / Não sei se vou suportar / Os seus absurdos /
Você vai embora / Por aí afora / Distribuindo sonhos / Os carinhos / Que você
me prometeu... / Você me desama / E depois reclama / Quando os seus desejos /
Já bem cansados / Desagradam os meus... / Não posso mais alimentar / A esse
amor tão louco / Que sufoco! / Eu sei que tenho / Mil razões / Até para deixar
/ De lhe amar / Não, mas eu não quero / Agir assim, meu louco amor / Eu tenho
mil razões / Para lhe perdoar / Por amar...
Assim que
escutaram o samba, os executivos perceberam que estavam diante de uma nova
obra-prima e jogaram duro:
– Meu amigo
esse samba está bom demais, mas para ser gravado pela Alcione. Vai ser o
carro-chefe do terceiro LP dela, que nós vamos lançar em 1978! Ou você cede
esse samba pra Marrom gravar ou nós não produzimos o seu LP...
Mesmo puto da
vida, Chico da Silva cedeu à pressão dos executivos.
Como prêmio de consolação, o parintinense foi autorizado a incluir a sua própria versão de “Pandeiro É Meu Nome”, no LP “Samba: quem sabe diz...”, lançado em 1977, que marcou sua estreia na indústria fonográfica.
A versão ficou tão boa que foi
incluída na trilha sonora da novela “Sem Lenço, Sem Documento”, da Rede Globo,
que marcou a estreia de Bruna Lombardi na emissora. Em compensação, Chico da
Silva excluiu definitivamente “Sufoco” do seu repertório. Não tem cristão no
mundo que o faça cantar essa música.
Apesar desse
acidente de percurso, a carreira de sambista de Chico da Silva decolou de vez.
Ele gravou 12 discos, à média de um por ano, fez dezenas de aparições no
programa “Fantástico”, da Rede Globo, participou de inúmeras apresentações na
“Discoteca do Chacrinha” e em outros programas televisivos, fez centenas de
shows do norte ao sul do país, emplacou sucessos inesquecíveis como “É Preciso
Muito Amor”, “Deus Menino”, “Convite A Roberto Carlos”, “Dinorá”, “Falso Amor
Sincero”, “Cantiga de Parintins”, “Açucena”, “A Lenda Dos Sete Mares do Amor” e
Chalaça”, mas teve sua carreira interrompida em 1990, quando foi diagnosticado
com câncer na laringe.
Para se
recuperar da doença, Chico da Silva voltou a morar em Parintins. Por
insistência de Paulinho Faria, José Carlos Portilho e Fred Goés, ele começou a
compor toadas para os dois bois da cidade apesar de ser torcedor do Caprichoso
de nascença (“Minha mãe foi uma das fundadoras do boi Caprichoso, em 1925”,
explicava). O nível das toadas de boi começou a subir, com o sarrafo de
qualidade das composições ficando cada dia mais alto. O Chico da Silva é
danado!

Nenhum comentário:
Postar um comentário