103. Fevereiro de 1945. Sábado gordo, dia do
“Baile de Máscaras” no clube mais elitista da cidade. Vestido garbosamente de
“black tie”, o futuro artista plástico Moacir Andrade, à época com 18 anos,
estava postado no alto da escadaria do Ideal Clube que dá para o salão
superior, quando sua atenção foi despertada para um casal de comerciantes
portugueses que adentrava no clube conduzindo uma jovem ricamente fantasiada de
dama da corte italiana. Ao lado da trinca, conversando animadamente, vinha o
médico Flávio Castro, amigo de sua família.
No rosto, a
garota trazia uma daquelas máscaras de porcelana típicas do carnaval de Veneza.
As luvas douradas, o vestido rodado cheio de superposições, o chapéu pontiagudo
na cabeça, a exuberante peruca loira e o discreto leque negro com que ela se
abanava graciosamente despertaram a libido do pintor. Foi tesão à primeira
vista.
Elegantemente,
Moacir tirou a moça para bailar, seus pais concordaram, e durante a noite toda,
até a orquestra tocar “Cidade Maravilhosa” encerrando o frege, os dois
pombinhos não se desgrudaram mais. Conversaram o tempo todo, fizeram planos
para o futuro, juraram amor eterno. O artista plástico ficara irremediavelmente
apaixonado.
O curioso é
que, com exceção de seus expressivos olhos azuis vislumbrados sob a máscara de
porcelana, nenhuma parte do corpo da menina estava a mostra. Moacir não sabia
se ela era branca, morena, mulata ou amarela. Mas isso era o de menos. O
importante é que ele estava completamente apaixonado e disposto a se casar com
a garota no dia seguinte.
Durante alguns
dias, Moacir Andrade tentou inutilmente localizar o paradeiro da menina. Como
ninguém era capaz de fornecer uma pista segura, ele tentou sua última cartada:
foi bater no consultório de Flávio Castro. O médico demonstrou uma certa
surpresa em ver aquele rapaz ainda imberbe tão empenhado assim em encontrar sua
alma gêmea.
– Olha, Moacir,
deixa eu te contar uma coisa. Aquela menina se chama Ariadne e seus pais são
abonados comerciantes locais. Ela é filha única, fala vários idiomas, toca
piano clássico e violino, é educadíssima, lindíssima e irradiava muita
felicidade! – explicou o médico. – Há dois anos ela contraiu o bacilo de
Hansen, ninguém sabe como. Seus pais gastaram uma fortuna com médicos do mundo
todo, mas não conseguiram debelar a doença. Ela tem poucos meses de vida. Os
três viajaram ontem para São Paulo e provavelmente você nunca mais vai voltar a
vê-los. A Ariadne me pediu apenas para te dar um recado: que aquela noite no
Baile de Máscaras do Ideal Clube foi a noite mais feliz de toda a sua vida.
Moacir Andrade
quase pirou o cabeção. Realmente, ele nunca mais soube do paradeiro da garota,
mas sempre que se recordava daquela noite mágica ficava visivelmente
emocionado.

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