109. Formado em Arquitetura pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Edmilson Rodrigues foi eleito deputado estadual do Pará em 1986 e reelegeu-se em 1990.
Em 1996, ele venceu a eleição para a Prefeitura de Belém usando como jingle de campanha a música “Vermelho”, de Chico da Silva.
Alertado pelo compositor paraense Nilson Chaves de que deveria cobrar direitos autorais pela utilização da música, Chico da Silva embarcou para Belém no início de agosto de 1996.
Durante dois meses, o
compositor parintinense tentou, sem sucesso, ser recebido pelos dirigentes
petistas. Acabou retornando para Manaus sem um tostão no bolso e se sentindo um
tremendo otário, pelo mico que pagou na capital paraense. A música continuou
sendo usada como jingle do PT pelos quatro anos seguintes.
Na campanha da
reeleição de Edmilson, em 2000, Chico da Silva resolveu colocar os pingos nos
is. Ele enviou uma procuração para o também compositor parintinense Pedrinho
Ribeiro, que estava morando em Belém, lhe dando plenos poderes para entrar com
uma representação criminal contra o PT, por violação dos direitos autorais.
Durante três
meses, Pedrinho tentou chegar a um acordo com os dirigentes petistas, mas só
conseguia ser recebido por pessoas do quinto escalão, que não tinham nenhum
poder decisório. Disposto a abandonar a via diplomática e partir para a
ignorância, Pedrinho deu um telefonema para Chico da Silva, que soou como um
ultimato:
– Olha,
compadre, os caras tão jogando duro. A única solução é você vir aqui e colocar
a boca no trombone. Tem um candidato da oposição que paga até 10 mil reais para
você aparecer no horário político dele dando um ralho no Edmilson. No meio
artístico, todo mundo já sabe da história e acham que o PT está te sacaneando.
Vem logo pra Belém ou você vai dançar de novo!...
Uma semana
antes da eleição toca o telefone celular de Pedrinho, que estava caçando lebres
nas quebradas de Ananindeua.
– Alô? Pedrinho
Ribeiro? Aqui é Chico da Silva. Já estou na área, compadre! Acabei de chegar em
Belém! – avisou o compositor.
– Onde é que
você está, para que eu possa te pegar?... – pergunta Pedrinho.
– Você conhece
o Hilton?... – questiona Chico, caprichando na pronúncia britânica do hotel
mais famoso (e caro) da cidade.
– Conheço,
claro que conheço! – garante Pedrinho, já começando a achar que Chico da Silva
estava indo com muita sede ao pote.
– Pois eu estou
atrás do Hilton, na Pensão Sete Sete! – anunciou Chico da Silva, sem deixar de
acentuar a pronúncia britânica do hotel.
(Pra quem não
conhece Belém, atrás do Hilton fica a zona do baixo meretrício da capital
paraense. São pensões e hotéis de alta rotatividade, com diária de R$ 10 e
troca de lençóis da cama a cada quinze dias. O renomado compositor
parintinense, realmente, não estava em boa situação financeira...)
Meia hora
depois Pedrinho estaciona o seu Fiat Prêmio caindo aos pedaços na Pensão 77.
Chico da Silva entrou no carro e já ficou meio cabreiro, porque a porta do
passageiro não fechava:
– Porra, meu
procurador, mas esse seu carango aqui está pedindo pra ir pro ferro-velho...
Vamos botar pra cima dos caras do PT e levantar um troco para dar uma
arrumadinha nessa porcaria, tá certo?...
Pedrinho concordou. Os dirigentes do PT, não. Eles continuaram dando “barrigadas” nos dois músicos. Como a eleição era no domingo, Pedrinho tentou a última cartada. Convenceu Chico da Silva a peitar o prefeito no último comício da campanha, que seria realizado na quinta-feira, numa invasão na periferia de Belém. Chico não se fez de rogado.
Na hora em que Edmilson chegou ao local e começou a beijar
crianças, antes de subir no palanque, Chico driblou os seguranças, deu uma
“gravata” no prefeito e contou seu drama, no pé do ouvido. Edmilson ficou
possesso:
– Porra,
Mascarenhas, que merda é essa?... Que falta de respeito é esse com o Chico da
Silva?... Resolve esse problema dele agora!... Agora!!!...
Coordenador da campanha, o paranaense Eustáquio Mascarenhas, ex-militante do PCBR, pediu desculpas ao prefeito, disse que não estava sabendo de nada e marcou um encontro com o compositor para o dia seguinte, às 18h.
Pedrinho ficou
desconfiado. Reunião sobre grana numa sexta-feira, com o horário bancário
encerrado, estava cheirando a nova “barrigada”.
No dia
seguinte, com os principais caciques petistas reunidos em torno de uma mesa no
comitê central do PT, Mascarenhas foi direto ao ponto:
– Muito bem,
“seu” Chico da Silva. Quanto é que o senhor pretende receber de direitos
autorais pelo uso da sua música?...
– Olha, se eu
fosse entrar na Justiça contra vocês, eu ia receber de 300 a 400 mil paus,
porque o PT usou minha música durante quatro anos seguidos e nunca me deu um
tostão! – explicou o compositor. – Mas como eu tenho simpatia pela luta de
vocês, com 60 mil a gente mata essa parada...
Mascarenhas
tomou um susto. Os demais dirigentes entreolharam-se, visivelmente
desnorteados. O paranaense retomou a palavra:
– Olha, “seu”
Chico da Silva, infelizmente a gente só está preparado para lhe dar 10 mil
reais! – anunciou o sujeito. – Mesmo porque se não fosse o PT, essa sua música
não teria ficado famosa...
Ao ouvir
aquilo, Chico da Silva ficou transtornado:
– Famosa por
causa do PT?!! Famosa por causa do PT?!! Olha, compadre, eu sou o Chico da
Silva!!! O Brasil inteiro conhece o meu trabalho! Tu conheces “Sufoco”? (Chico
cantarolou um pouco) Essa música é minha e foi com ela que a Alcione ficou
famosa! Tu conheces “É Preciso Muito Amor”? (Chico cantarolou um pouco) Essa é
uma parceria minha com o Noca da Portela e foi gravada na França pelo Paul
Mauriat! Pelo Paul Mauriat, porra! Tu conheces “Esquadrão Do Samba”? (Chico
cantarolou um pouco) Foi a música do ano em uma enquete feita pelo
“Fantástico”!... Antes de ser gravada pela Fafá de Belém, a música “Vermelho”
já tinha virado hino do Benfica de Portugal e do Inter de Porto Alegre!
O cantor deu
uma parada técnica, respirou fundo, limpou o suor da testa com um lenço e
voltou a soltar os cachorros:
– Eu sou o
Chico da Silva, porra, não preciso da bosta do PT para ser famoso!!! Eu sou um
trabalhador e socialista igual aquele cara ali (Chico apontou para um imenso
mural com a foto do Che Guevara), mas vocês são uns picaretas! Vocês dizem que
vão ajudar os trabalhadores, mas estão querendo botar no meu rabo sem coar!
Porra, compadre, eu vivo das minhas composições, do meu trabalho intelectual,
das músicas que faço! Eu sou um trabalhador! Eu tenho família pra criar! Isso
que vocês estão fazendo comigo é sacanagem, porra! Vocês estão me roubando na
maior cara de pau e ficam com essa groselha de que são socialistas!
Aí, virando-se
para Pedrinho, determinou:
– Vamos embora,
meu procurador, que com esses picaretas não tem mais jogo!...
Pânico no
bordel. A tesoureira da campanha tentou serenar os ânimos:
– Olha, Chico
da Silva, a gente não tem nenhum interesse em lhe prejudicar. A gente quer usar
sua música também no segundo turno. Será que não dava pra gente fechar esse
acordo em R$ 30 mil?...
Com o
sangue-frio de um condenado à morte enfrentando o pelotão de fuzilamento, Chico
não se deu por achado:
– Eu queria que
vocês me dessem licença, mas preciso discutir essa nova proposta a sós, com meu
procurador...
Os dirigentes
petistas saíram da sala. Pedrinho Ribeiro quase esganou o compositor:
– Porra, Chico,
tu tás ficando louco? Aceita logo essa porra e vamos embora, antes que eles
deem marcha-ré!... Eu estou tão liso que se jogarem um gato em cima de mim ele
não se agarra... E tu deves estar muito pior do que eu!... Deixa de ser louco e
segura logo essa ponteira!!!
Convencido pelo
procurador, Chico embolsou a grana. Dez mil reais em espécie e dois cheques
pré-datados de 10 mil. Os dois músicos voltaram para a pensão e Chico começou a
arrumar a mala. Pedrinho ficou folheando uma revista Playboy, aguardando
ansiosamente sua parte na “bufunfa”. Com o canto dos olhos, ele percebeu Chico
da Silva separando cinco pacotes de mil reais cada.
– Bom, cinco
mil não era só o que eu esperava, mas está de bom tamanho – pensou com seus
botões. – Afinal de contas, eu fui o estrategista da parada.
De repente,
Chico retirou um pacote de mil reais do monte. Foi como se Pedrinho tivesse
recebido um murro no fígado. Ele sentiu as pernas tremerem e a vista escurecer.
Ainda grogue, buscou o canto neutro do ringue.
De repente,
Chico retirou outro pacote de mil reais do monte. Foi como se Pedrinho tivesse
recebido um tiro à queima-roupa, no meio da lata. Ele estava esperando a
extrema-unção, quando o conterrâneo se aproximou:
– Meu compadre,
aqui estão três mil reais pelo seu trabalho...
Antes que
Pedrinho esboçasse uma reação, Chico da Silva jogou a pá de cal:
– Esse valor
corresponde à porcentagem de 10%, que é a comissão universal dos
procuradores!...
Não havia como
contestar aquele princípio jurídico. Pedrinho embolsou a grana e foi deixar
Chico da Silva no aeroporto.
O segundo turno
da eleição municipal em Belém mostrou a banalização das denúncias como
instrumento de campanha. Empatados tecnicamente até às vésperas da eleição,
Edmilson Rodrigues (PT) e Duciomar Costa (PSD) atacaram de forma tão brutal a
idoneidade um do outro que acabaram se nivelando.
Chegaram ao
final da campanha com o mesmo slogan. “Contra passado sujo, candidato limpo”,
dizia Edmilson. “Contra campanha suja, candidato limpo”, respondia Duciomar.
O apelo da
música “Vermelho”, de Chico da Silva, talvez tenha acabado por fazer a
diferença e garantido um novo mandato ao prefeito petista.

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